
“Drogas: uma questão do cotidiano”
No dia 05 de novembro realizamos mais um encontro “Oficinas: Abrigos em Rede”. Desta vez a oficina aconteceu na Casa Taiguara de Cultura e os profissionais convidados foram: Bruno Ramos e Mallú Amaral.
Bruno iniciou o encontro com a pergunta: “O que são as drogas hoje em dia?” A partir das respostas dadas pelo grupo, buscou esclarecer os conceitos gerais envolvidos neste tema apresentando uma ampla definição: algo que vem de fora do organismo e altera as funções do corpo e do comportamento. Notamos que a palavra está associada a algo que não consideramos como bom (temos até a expressão “Que droga!” para se referir a algo que não gostamos). Mas sabemos que a palavra também quer dizer sobre algo que dá prazer. Temos, então, diversos significados dependendo do contexto. Temos também na sociedade diferentes contextos para o mesmo uso da droga (por exemplo: existe o uso da coca para diversão, mas também o uso da mesma droga para minimizar os efeitos da altitude em cidades instaladas em altas montanhas).
Bruno verificou a história deste uso da droga e constatou que todas as civilizações fizeram uso de substâncias que alteram a consciência. Temos assim diferentes usos da droga:
- uso no sacramento religioso (por exemplo, a ayahuasca nos rituais do Santo Daime ou o vinho nos rituais da Igreja Católica);
- uso mágico e curativo;
- uso recreativo e para o prazer.
A palavra “droga” vem do holandês, “drug”, que significa algo seco ou coisa seca. Ao longo da história, o uso das drogas ganhou vários contextos, funções e sentidos diferentes.
Na época da busca por especiarias no Oriente, todas as substâncias eram chamadas de “drugs” (ópio, canela, cravo, pimenta do reino, etc). Todas essas substâncias que, em suas origens tinham seu significado e seu uso específico, eram colocados sob o nome de “drug”, e tinham a função de aguçar o sentido das pessoas (anos 1.600 d.C.).
No começo dos anos 1.800 d.C., algumas plantas eram sintetizadas e concentradas e algumas começaram a ser usadas como algo curativo. Porém, a linha entre algo curativo e algo recreativo ficou tênue.
Na definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), “droga” é qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas produzindo alterações em seu funcionamento.
Bruno colocou outra problematização: Há uma proximidade muito grande entre o que consideramos droga, remédio, veneno ou alimento. Na realidade, a conceituação de cada substância é dada por nós mesmos socialmente. Por exemplo, ao comermos uma feijoada, sabemos que teremos uma digestão mais demorada (e, portanto, a função do nosso organismo, por vezes, alterada); porém não consideramos a feijoada uma “droga”.
No século XIX, 90% dos remédios continham ópio. Hoje, temos substâncias sintetizadas para o mesmo fim. A heroína, por exemplo, surgiu para curar quem fazia uso de morfina. Mas, ao longo do tempo, esta droga foi deixando de ser usada como remédio e foi sendo usada com finalidade recreativa.
Bruno também apontou que existem diferentes efeitos da droga de acordo com diferentes fatores, tais como: quantidade utilizada, meio de consumo, o tipo da droga inserida, o tempo de uso, assimilação por diferentes organismos e seus padrões genéticos, mistura de substâncias, contexto social e as condições psicológicas envolvidas no momento do uso. Nesse sentido, vemos que o consumo de drogas causa efeitos não só farmacológicos, mas também sociais e até valorativos.
Existe um diferencial de valores no uso de drogas por diferentes sociedades. Em cada grupo social, vemos uma variação de sentidos, normas (o que é e o que não é permitido), valores, formas de uso e quantidade delimitada. O que normalmente é lícito e ilícito varia em cada cultura. E isso acontece através de leis formais e leis informais que são formas de controle do uso. Por exemplo, o que é utilizado para uma questão religiosa, não é permitido para o uso recreativo (como o caso do uso da ayahuasca, no Santo Daime). Esse fator de controle direciona as pessoas a usarem as drogas dentro de um contexto. Quando o uso da droga rompe esses contextos (e, portanto, acaba sendo usada em qualquer contexto), isso acaba se tornando um problema.
As drogas lícitas no Brasil são o álcool, o tabaco, a cafeína, e o uso religioso para algumas substâncias. As drogas ilícitas no Brasil são a cocaína, o crack, a maconha, LSD, a heroína, o ópio, entre outros.
As drogas podem ser classificadas como:
1) depressoras do sistema nervoso central (inibição da autocensura, inibição da ansiedade, sonolência) – neste caso, há usuários que fazem uso médico e há usuários que fazem uso recreativo;
2) estimulantes do sistema nervoso central – por exemplo, a cocaína, a nicotina e a cafeína;
3) perturbadoras do sistema nervoso central (altera a noção de tempo e espaço) – por exemplo, a maconha, certos cogumelos, LSD, ecstasy, anticolinégicos).
Os padrões de uso também são classificados por Bruno:
1) uso (qualquer consumo: experimental, ocasional, regular);
2) abuso (uso com problemas, uso nocivo);
3) dependência (uso compulsivo, com perda de controle, acarretando problemas sérios).
Temos, assim, na dependência a fonte de desejo compulsivo, a dificuldade de controle do comportamento de consumir, a intenção de aliviar ou evitar sintomas de abstinência, o abandono progressivo de prazeres ou interesses alternativos e a persistência no uso da substância com conseqüências nocivas.
Mallú Amaral trouxe o tema “Da Privação à Delinqüência: O Caminho às Drogas”. Ela problematizou primeiro o significado da palavra adolescência: um período de evolução e transformação biopsicossocial (desejo sexual, busca da liberdade, transição dos limites sociais familiares).
A convidada também apontou certas características da contemporaneidade, na qual a adolescência está se estendendo. Percebemos que a adolescência tem começado mais cedo nas crianças e também os adultos prolongam os modos de adolescência. Temos hoje em dia, a valorização da sexualidade e a valorização do “ter” mais do que o “ser” sendo a base da cultura de consumo atual.
Mallú mostrou que a adolescência acaba por mostrar alguns sintomas que têm seus significados, ou seja, todos os sintomas querem dizer algo pelo adolescente:
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SINTOMAS:
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SIGNIFICADOS:
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- fobias
- transtornos do pânico
- TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)
- tendências anti-sociais
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- pedido de ajuda
- esperança
- agente de transformação social
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Seguimos a teoria Winnicottiana com Mallú para visualizar a vida contemporânea, e na qual também vemos a importância do brincar ao longo do desenvolvimento infantil. Temos, então, que o desenvolvimento emocional infantil está intimamente ligado ao envolvimento bebê-cuidador e que o ambiente deve ser suficientemente bom (confiança parental em relação a um adulto e condições de sobrevivência) para o desenvolvimento da aceitação pessoal e o controle de aspectos agressivos e amorosos da criança.
Com esta mesma teoria, a palestrante mostra também que o brincar e o uso dos símbolos contribui para a contenção da destrutividade interna do ser humano em desenvolvimento. No entanto, neste quadro de significações, também vemos que a delinqüência tem um sentido implícito de busca de esperança. Para Winnicott, a agressividade quer dizer uma busca de esperança.
Segundo a psicóloga, hoje também é fácil notarmos uma inversão de valores no mundo contemporâneo, onde não temos mais normas e valores pessoais tão marcados. Temos assim, por um lado, adolescentes com comportamento anti-social, frágeis e inseguros, que necessitam de adultos firmes, seguros e amorosos como referências para lidarem com seus conflitos e suas dores, e por outro lado, temos adultos que também estão em crise, sem firmeza e inseguros; famílias e instituições perdidas, sem saber como desempenhar seus papéis. Quando os adolescentes não acham referências em casa procuram ajuda em outros lugares (familiares, escola, etc) e, não achando, o adolescente vai até as últimas conseqüências para ver até onde sua agressividade pode ser contida.
Da privação à tendência anti-social, o adolescente passa por baixa auto-estima e sentimento de onipotência e se comporta com: humor instável, imaturidade, hipersensibilidade, mentiras, imediatismo, ausência de limites, baixa tolerância, impulsividade, manipulação.
O uso da droga pode ser um recurso do adolescente para lidar com a falha ou omissão ambiental, sendo um sintoma que manifesta um pedido de ajuda. Tratar o adolescente em dependência química é portanto, atentar para a organização de um ambiente adequado. Tratar o adolescente é também cuidar da família.
Mallú nota que, hoje, a cultura “vende” o prazer a qualquer preço, porém, na realidade em que vivemos, temos de tratar com a perda e a frustração. Por isso, nosso desafio deve ser atualizar um ambiente adequado, com um quadro de referência seguro, buscando o resgate do seu “self” e de sua confiança.
Para a palestrante, o comprometimento do educador para com um caso de drogadição deve ser de um atendimento prolongado e contínuo (um resgate do vínculo suficientemente bom), com um grau de tolerância enorme (suportar a agressão; impedir ou reparar a destruição; trabalhar as frustrações; tolerar o incômodo) e de instruir o adolescente a reparar os danos. Para ela, a mão que é o modelo, deve ser forte e firme e proporcionar um ambiente seguro.
Mallú compartilhou conosco um pouco de um “Projeto de Prevenção a Drogas” e seus objetivos específicos:
- Mobilizar os pais, educadores e cuidadores a reconhecerem a demanda dos adolescentes contemporâneos.
- Conscientizar o adulto da importância de ser presente no desenvolvimento emocional de um adolescente.
- Dividir as responsabilidades entre instituição e pais.
- Orientar os educadores sobre as principais dificuldades apresentadas durante a adolescência.
- Prevenir os adolescentes sobre os conflitos inerentes desta fase e suas curiosidades quanto à sexualidade e as drogas.
- Promover uma consciência crítica e reflexiva.
- Formar adolescentes capazes de elaborar e se posicionar frente a seus desejos, escolhas e ao grupo de amigos.
Pretendemos oferecer ao adolescente a possibilidade de participar de um grupo que receba as dúvidas, temores e angústias inerentes à sua fase de desenvolvimento e realidade cultural. E, como prevenção, podemos criar um campo seguro, um quadro de referência que permita os adolescentes brincar e se arriscar.
Alguns temas a serem trabalhados como: sigilo e respeito, dúvidas sobre drogas, adolescência e a explosão hormonal-sexualidade, reflexão sobre filmes e
campanhas publicitárias, amizade, limite, família.
Sobre o tratamento para dependentes, ela sugere uma equipe multiprofissional que trabalhe com os adolescentes a partir de: um grupo de acolhimento, terapia individual, um grupo de formação humana, um grupo de apoio ao adolescente, oficinas de arte, música e esporte e que também trabalhe com suas famílias a partir de: grupo de orientação familiar e grupo de apoio à família.
Por último, Mallú deixou a dica de entidades que podem ser parceiras no tratamento: Secretaria Municipal da Saúde, Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, Vara da Infância e Juventude, Conselho Tutelar, CAPS – Centro de Atenção Psicossocial.
Discussão no Grande Grupo

Na continuidade do encontro os participantes fizeram uma pausa para um café, e depois foram divididos em pequenos grupos, onde puderam debater com outros colegas as idéias que foram compartilhadas pelos convidados e levantar questões para o debate final. Foram elas: Como lidar com o coquetel de medicação?; Como lidar com o adolescente que traz a droga para dentro da instituição de acolhimento? Ou quando é institucionalizado depois de já viciado?; Como lidar com a política de redução de danos?; Como lidar com a redução de danos com a medicalização (já que isso se estende por anos)?; Existem usuários de drogas que não são agressivos?; Como contemplar as questões coletivas (institucionais) e as questões individuais?; entre outras questões.
Bruno questionou o que comumente se entende por “redução de danos”? E apontou, por exemplo, o quanto o consumo da droga foi reduzido e quanto um determinado indivíduo já consegue estabelecer vínculos com a instituição.
Bruno também discutiu o estabelecimento de uma ética na forma de se relacionar com a pessoa viciada: um caminho individual de diálogo e não simplesmente uma construção de relacionamento proibitivo. Uma construção conjunta, entre educador e adolescente, de um caminho possível. Pode até haver, por exemplo, uma negociação de doação de seringas para não haver contaminação em certo momento.
O grupo também discutiu que nem todo uso de drogas é problemático, já que muitas vezes o uso isolado está relacionado à experimentação, à experiência. Porém, isso não quer dizer que a situação problemática não possa acontecer.
Ester colocou para o grupo a diferença entre as condições legais, institucionais, e as condições culturais. Ou seja, o que é definido pela equipe gestora da instituição de acolhimento junto aos órgãos de justiça e de saúde deve estar claro aos residentes de uma instituição, pois um determinado adolescente pode ter um determinado acerto junto a estes órgãos em uma situação peculiar de tratamento e os demais residentes devem saber disso como uma regra particular. Neste sentido, Mallú voltou a colocar a questão de que o adolescente deve ter um “norte”, deve ter clareza sobre todas as regras, do que é permitido ou não dentro de uma instituição.
Bruno colocou, por sua vez, a questão de alguns casos terem certa dificuldade de se tratar individualmente por conta das próprias questões institucionais.
Julio citou uma experiência na qual conversou com a comunidade do município de seu abrigo para que todos ajudassem a cuidar de “seu” adolescente.
Milton apontou a importância do adolescente reconhecer e distinguir o que é um dano e o que não é. Nesse sentido, Bruno também apontou a importância de realizar o questionamento junto ao adolescente.
Mallú voltou a colocar a questão do imediatismo do prazer em nossa cultura atual como algo que atrapalha o cotidiano, e portanto é algo que deve ser trabalhado. O educador deve ter o papel de ajudar a formar, passando o conhecimento da vida (como, por exemplo, apontar a importância de ser trabalhar ou estudar durante a semana inteira para depois poder curtir uma balada no sábado à noite). Ela também apontou a importância do trabalho em grupo, nesse sentido, para discutir os assuntos problemáticos e as regras, onde nada deve ser imposto (tanto a abertura, como o fechamento), mas sim compreendido por todos.
Ressaltou a necessidade de cada caso ser tratado em sua particularidade. Lembrou que, por vezes, o acompanhamento médico e a medicalização (se bem gerida) pode ser um bom aliado. Mas Milton apontou o problema da banalização atual da medicação e reafirmou a importância do bom e correto acompanhamento médico. Já Cristina compartilhou a importância do educador que acompanha a consulta médica descrever o que observa dos adolescentes com cuidado e sem julgamentos prévios, pois isso interfere no diagnóstico do profissional de saúde.
Mallú voltou a afirmar a importância dos adolescentes encontrarem instituições com regras claras para que estes tenham um “norte”, uma referência. E Bruno apontou novamente a importância de se problematizar junto ao indivíduo, procurando ver e apontar “o que é importante na vida”, a ponto do adolescente aprender a valorizar a sua própria vida, para que o delimitador de limites não seja mais exterior (um adulto responsável), mas o próprio adolescente no seu processo de aquisição de autonomia.
Bruna encerrou nosso encontro lembrando que o nosso maior desafio é que cada caso é um caso, cada abrigo é uma instituição particular e cada adolescente é um indivíduo. Temos então de trabalhar a individualidade dentro da coletividade.