Notícias do Projeto: “Mar de Histórias”, em desenvolvimento com o apoio do MINC

ÉDSC_0561 com enorme prazer que o programa Fazendo Minha História divulga as primeiras notícias sobre o projeto “Mar de Histórias”, em desenvolvimento com apoio do Ministério da Cultura (MINC) e financiamento da Cosmoquímica e Exportadora de Café Guaxupé.

Os serviços de acolhimento da região ABCD da Grande São Paulo selecionadas para serem contemplados pelo projeto são:

  • Associação São Luiz – São Bernardo do Campo
  • Lar Escola Municipal de São Caetano do Sul
  • Abrigo Municipal de Mauá
  • Lar Sol da Esperança – Mauá
  • Casa Andança (Fundação Criança) – São Bernardo do Campo
  • Casa Raio de Sol (Fundação Criança) – São Bernardo do Campo
  • Casa Arco-Íris (Fundação Criança) – São Bernardo do Campo

O primeiro seminário participativo com os profissionais dos serviços selecionados será realizado em maio!

Aguardem notícias!

Equipe Fazendo Minha História

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Notícias do projeto “Fazendo Minha História na cidade de São Paulo”, desenvolvido com o apoio do MinC

BLOGO projeto “Fazendo História na Cidade de São Paulo” encerrou sua atuação de forma bem sucedida! A partir de agora, os serviços de acolhimento contemplados estão prontos para darem continuidade às ações de forma autônoma, seguindo com os momentos individuais e em grupo de mediação de leitura realizados pelos voluntários e educadores em cada serviço de acolhimento parceiro!

Nas últimas etapas do projeto, novos voluntários foram formados. Através da atuação deles, crianças e adolescentes dos SAICAS Casa Coração de Maria, Casa Vida II, Casa Vida I, Casa Edith Stein, Heloisa Freitas Brito, Padre Damian Kirckgessener, Roberto Borghi, Sol e Vida, Abrigo Amigos da Inocência, Casa Abrigo São Judas passaram a participar dos encontros individuais de mediação de leitura e registro das histórias de vida através de atividades lúdicas e artísticas.

BLOG 1Nos últimos meses do projeto e com encontros a pleno vapor, foram feitas reuniões de supervisão em cada serviço de acolhimento para acompanhamento das ações do projeto.

No dia 6 de novembro, realizou-se o 3º seminário participativo no Centro de Exposições e Convenções Expo Center Norte. Este encontro, que contou com a participação de representantes das equipes de todas as instituições contempladas, teve como objetivo refletir sobre os resultados obtidos e planejar a continuidade deste em cada uma das instituições participantes. As atividades realizadas ao longo do dia permitiram que os profissionais discutissem os avanços e os desafios encontrados na implementação do projeto e que pensassem em conjunto sobre novas estratégias de trabalho.

Foi um encontro inspirador e motivador, a continuidade autônoma do projeto promete ser um sucesso!

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Sistematização OFICINA::Todo (a) cuidador (a) deve receber apoio, atenção, formação e ajuda em sua tarefa do bem cuidar. :: III Seminário Internacional de Qualidade nos serviços de acolhimento de crianças e adolescentes. 10/11/2015

Nos dia 9, 10 e 11 de Novembro, foi realizado o III Seminário Internacional de Qualidade nos serviços de acolhimento de crianças e adolescentes na Universidade Anhembi Morumbi, sob a organização do NECA, no qual foi realizada uma Oficina intitulada: “Todo cuidador deve receber apoio, atenção, formação e ajuda em sua tarefa do bem cuidar” pelo Instituto Fazendo História. A equipe de formação do Instituto, composta pela coordenadora e técnica do Programa, Tatiana Barile e Fernanda Cocitta foi quem realizou a Oficina.

Tatiana Barile iniciou a Oficina, convidando os participantes a realizarem uma dinâmica de apresentação para mapeamento do grupo. Na ocasião havia 40 participantes, tanto homens quanto mulheres, de cargos bem variados (educadores, técnicos, gestores e presidentes de instituições mantenedoras e SAICAS), com formações variáveis nas áreas humanas e sociais (prevalência por assistentes sociais, psicólogos e pedagogos). Foram identificados participantes oriundos de diversas regiões do país, compondo 9 Estados e mais de 20 Municípios, além de estrangeiros.

Após o primeiro momento de identificação e integração, o grupo participou de uma atividade de design thinking, na qual cada um contribuía com uma palavra que representasse as seguintes questões norteadoras:

– O que é cuidado?

– O que é cuidado com as crianças e adolescentes?

– O que é cuidado com os educadores?

A partir destas questões e das contribuições do grupo, formou-se um grande painel no qual as palavras foram agrupadas, formando um grande diagnóstico sobre o tema cuidado. No que diz respeito ao cuidado, ficou claro que cuidado passa pelo afeto, amor, carinho, estar atento ao outro, respeitar o outro, oferecer suporte, empatia, proteção, singularidade, liberdade, honestidade, encontro e limites. Dentre estas palavras as que tiveram grande destaque foram o amor e atenção, que apareceram muitas vezes.

No que diz respeito aos cuidados com crianças e adolescentes, o grupo trouxe: segurança, compromisso, confiança, direcionamento, compreensão, acolhimento, garantia de direitos, disponibilidade, individualidade, atenção, olhar, colo, desafio, amor, respeito, acolher sem estigmatizar, proteção e referência. Nesta categoria, as  palavras que apareceram com maior frequência foram: proteção, escuta e respeito.

Na categoria de cuidados com educadores, o grupo entende que sentem-se cuidados quando: são escutados, tem o suporte técnico para o acolhimento adequado,  acolhidos e amparados pela equipe técnica e coordenação em seus desafios (suporte), informação e conhecimento, quando são respeitados, possuem apoio, direcionamento, amor, olhar, segurança, formação continuada, capacitação e escuta sendo estas, as palavras que apresentaram grande representatividade nesta categoria.

Após a realização desta atividade inicial, o grupo foi convidado a seguir na Oficina através de 4 grupos que pudessem discutir 4 temas, a partir de aspectos positivos negativos e possíveis estratégias, através da metodologia de world café, na qual todos os participantes teriam a possibilidade de contribuir com todos os temas. Os quatro temas discutido foram:

– Seleção de educadores;

– Organização da rotina;

– Histórias pessoais;

– Reuniões de equipe, formação e supervisão;

SELEÇÃO DE EDUCADORES

No que diz respeito à seleção de educadores, os aspectos negativos foram:

– Falta de profissionais qualificados;

– Falta de critérios na seleção (muitas indicações sem perfil);

– Baixos salários;

– Ausência de plano de carreira;

– Alta rotatividade;

Os aspectos positivos foram:

– Divulgação em sites e redes sociais;

– Parcerias com universidades;

– Recursos metodológicos específicos;

– Perfis bem definidos;

– Capacitação e valorização profissional;

Com relação às estratégias sugeridas sobre a seleção de educadores, o grupo trouxe:

– Informações claras sobre as atribuições do cargo desde o início do processo seletivo;

– Desenvolver um passo a passo para inserção do educador no cotidiano;

– Realizar processos formativos dos profissionais;

– Melhorar condições de trabalho (salário, carga horária);

ORGANIZAÇÃO DA ROTINA

No que diz respeito à organização da rotina, os aspectos negativos foram:

– Diferenças de perfis e concepções de trabalho;

– Rotatividade da equipe;

– Dúvidas sobre com fazer;

– Rotina estabelecida sem considerar as singularidades das crianças;

– Prática mecanicista sem reflexão;

– Divergências entre os PIAs e a rotina;

No que diz respeito à organização da rotina, os aspectos positivos foram:

– Alinhamento na equipe;

– Participação dos acolhidos na construção da rotina;

– Momentos de escuta/supervisão;

– Construção da autonomia/co-responsabilidade;

– Estabelecimento de rotinas internas e externas ao serviço;

Com relação às estratégias sugeridas sobre a organização da rotina, o grupo trouxe:

– Estabelecê-la de acordo com as necessidades dos acolhidos;

– Identificação de recursos para a execução da mesma;

– Estabelecimento de comunicação entre todos os educadores e parceiros envolvidos;

– Ordenar prioridades;

– Contemplar atividades pedagógicas na rotina;

HISTÓRIAS PESSOAIS

No que diz respeito às histórias pessoais, os aspectos negativos foram:

– Falta de sensibilidade e exposição das crianças;

– Superproteção/ Identificação dos educadores com as crianças;

– Revitimização;

– Fragilização do educador;

– Falta de suporte técnico e de auto-conhecimento;

No que diz respeito às histórias pessoais, os aspectos positivos foram:

– O conhecimento da história possibilita melhor acolhimento da criança e adolescente;

– Empatia/ motivação;

– Relação de confiança e aproximação entre crianças e educadores;

– Identificação com o trabalho/sensibilização sobre o papel do educador;

– Novas possibilidades de atuação com as crianças e adolescentes;

Com relação às estratégias sugeridas sobre as histórias pessoais, o grupo trouxe:

– Realizar capacitação e supervisão continuada com toda equipe;

– Aprimorar a seleção de profissionais para atuação neste contexto;

– Ampliar repertório e qualidade de vida das crianças acolhidas;

– Aumentar a remuneração dos profissionais para melhorar a qualidade do trabalho com as histórias de vida;

REUNIÕES DE EQUIPE, FORMAÇÃO E SUPERVISÃO

No que diz respeito às reuniões de equipe, formação e supervisão, os aspectos negativos foram:

– Dificuldade para reunir toda equipe (carga horária);

– Encontros muito hierarquizados;

– Distanciamento de diferentes saberes;

– Descontinuidade de acordos e combinados;

No que diz respeito às reuniões de equipe, formação e supervisão, os aspectos positivos foram:

– Reuniões sistemáticas para discussões de caso;

– Formação continuada: mais conhecimento, motivação, diálogo e interação na equipe;

– Supervisão interna (equipe técnica) e externa (profissional especializado);

Com relação às estratégias sugeridas sobre as reuniões de equipe, formação e supervisão, o grupo trouxe:

– Concurso público;

– Formação horizontal;

– Banco de horas para facilitar a participação de todos;

– Capacitação para todos;

– Valorização de saberes da equipe (escuta e fala);

Ao final das apresentações dos quatro grupos, o grupo ressaltou a importância do cuidado com o cuidador como maneira de potencializar a qualidade no atendimento de crianças e adolescentes acolhidos, desde a seleção adequada de profissionais ao constante apoio e aprimoramento profissional de toda equipe. Ficou claro que existem profissionais com muita clareza e comprometimento com seus papéis profissionais, porém, em decorrência de condições precárias de trabalho, como os salários dos profissionais, e o baixo investimento em formação, capacitação e supervisão, o trabalho acaba por ficar fragilizado.

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Sistematização OFICINAS :: Adolescência e autonomia: eles estão prontos? :: 24 de outubro de 2015

No dia 24 de outubro aconteceu a oficina Adolescência e autonomia: eles estão prontos, que teve como foco principal o trabalho relacionado à construção com os adolescentes de seus projetos de moradia. Foram convidados representantes de diversos serviços de moradia, além do Grupo Nós, do Instituto Fazendo História que apresentou sua metodologia e falou sobre aspectos importante na construção dos projetos com os jovens.

A abertura da oficina se deu com a apresentação de áudios gravados com crianças e adolescentes, em serviços de acolhimento e após sua saída, falando sobre moradia. Além disso, foi feita a leitura de uma poesia “Para os que virão”, de Tiago de Melo, aquecendo assim o público para o início do debate.

A primeira fala da oficina foi feita por Carlos Silva, da organização Aldeias Infantis SOS, que apresentou um panorama das políticas públicas voltadas para infância e adolescência no Brasil. Segundo ele, começa-se a pensar neste tema somente nos últimos 15 anos, portanto um período curto em nossa história. Carlos pontua também que normalmente a pauta dos jovens vêm à tona quando suas demandas passam a ser um problema para o Estado. Também nos nossos serviços costumamos pensar nos jovens quando seus conflitos vêm a tona e nos incomodam. Emancipação deve ser pensada antes da chegada aos 18 anos, desde quando a criança ou adolescente chega no serviço e a rede deve ser responsabilizada por esse processo: CRAS, CREAS. É preciso pensar as políticas públicas de forma integrada e romper com a cultura do serviço de acolhimento de “apagar incêndios”. Por exemplo, o PIA, que deveria ser um instrumento de auxílio no processo de construção dos projetos dos jovens acaba sendo, por vezes, um documento de gaveta – é entregue para ser entregue para o juiz, mas não pensado como um instrumento de planejamento. Muitas vezes, por exemplo, os jovens ou as famílias não são convocados para participar desta construção. Carlos pontua que é necessário que as equipes dos serviços de acolhimento atuem de forma pró ativa, não esperando somente uma resposta do Estado. Por exemplo, se é pensado o encaminhamento para uma república sem ter tido um trabalho para autonomia do jovem, a questão é somente prolongada mais um pouco até os 21 anos, quando o jovem deve ser da república.               Carlos, apresentando a discrepância de dados de orçamento destinado à Assistência Social, comparado a outros orçamento (por exemplo destinado à encargos como juros, etc), traz a importante reflexão da falta de recursos existentes atualmente para o trabalho com qualidade e da importância, portanto, de termos uma postura militante para que a situação possa de fato se transformar. Muitas vezes não é possível fazer um trabalho de qualidade com os recursos que se têm disponível.

Após esta fala de abertura, foram apresentados os seguintes serviços de moradia e projetos:

Unidade de acolhimento CAPS SÉ

Para explicar as caraterísticas da unidade de acolhimento do CAPS Sé, Ruth Silvestre faz um panorama dos serviços da rede de saúde. Segundo ela, após a reforma psiquiátrica, o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) vem substituir o modelo de cuidado antes baseado nos manicômios e hospitais psiquiátricos. Atualmente os atendimentos são pensados dentro da Rede de Atenção Psicossocial, sendo o CAPS um dos serviços e a unidade de acolhimento uma extensão dele, entendida como uma moradia provisória. Segundo Ruth, para cada pessoa que é atendida no CAPS é construído um Projeto Terapêutico Singular (PTS), no qual algumas vezes se inscreve a Unidade de Acolhimento como projeto para alguns adolescentes. A Unidade de Acolhimento não é portanto, indicada para qualquer adolescente. É transitória e o prazo do adolescente estar neste serviço é de até 6 meses. Normalmente ela pode ser um suporte, uma potencialidade para que construam seus projetos de moradia (não é uma finalidade). É indicada para meninos que tem muita dificuldade de estar no abrigo por questões, por exemplo, do uso de drogas. O CAPS é o serviço que avalia e indica os meninos para a Unidade de Acolhimento. São casas pequenas, com até 10 moradores e normalmente mistas. RH é formada por 8 acompanhantes (2 por plantão, em turnos 12x 36) e dois técnicos que coordenam a casa. É um modelo aberto, substitutivo às comunidades terapêuticos, sendo que a ideia é que os adolescentes possam frequentar os serviços e conviver normalmente na comunidade, podendo assim “habitar o território para além da droga”. De acordo com Ruth, os meninos chegam ao serviços com questões fortes de violência e um recurso muito utilizado para o trabalho é o das assembleias – que permite que os meninos coloquem em palavras o que muitas vezes expressão em socos, chutes e comportamentos violentos.

Centro de acolhida – Albergue – Centro Pop Zaki Narchi

O segundo serviço apresentado foi o Centro de Acolhida, representado por Vítor XXX. Vitor ressalta que cada centro de acolhida no município tem uma história, protocolos de atendimentos, realidade de trabalho e gestões diferentes. Zaki Narchi é um complexo relativamente novo, que completou 2 anos de funcionamento. Serviu para acolher as pessoas na frente fria de 2013, que foi bastante intensa. Vitor relata que é possível questionar o centro de acolhida como uma opção de acolhimento para o adolescentes saídos do serviço de acolhimento, pois segundo ele é grande o número de usuários de drogas, egressos dos sistema penitenciário, casos de doença mental e número excessivos de acolhimento. Em São Paulo, segundo Vítor, existem cerca de 16000 pessoas em situação de rua e cerca de 9000 vagas disponíveis em albergues. O complexo Zaki Narchi tem a capacidade de acolher 850 pessoas, dividido em três centros de acolhida diferentes.

Zaki Narchi 1 – 16 horas –  atende 480 pessoas, porta aberta

Zaki Narchi 2 – 24 horas – atende 200 pessoas

Zaki Narchi 3 – 24 horas

O complexo pensa o processo de saída das pessoas das ruas e existe um sistema de progressão – as pessoas entram pela porta entrada (normalmente para pernoite) e são depois encaminhadas para o Zaki Narchi 2, segundo alguns critérios (documentação em ordem, realizar algum tipo de trabalho ou curso) e por fim encaminhados para o Zaki Narchi, onde se pensa a saída da rua. Há um grande número de jovens no complexo e estratégias pensadas para o trabalho, baseadas principalmente na escuta, construção de regras e encaminhamento para cursos e trabalho.

República Autônoma

O terceiro serviço de moradia apresentado foi a República autônoma, criada por Lucas e Tiago, que após passarem por serviço de acolhimento e república conveniada à prefeitura, organizaram seu próprio serviço para morar e acolher outros jovens (atualmente moram 5 jovens). Segundo a eles, a ideia da casa surgiu quando faltavam 3 meses para sair da República e o grupo de amigos se uniu para criar a própria república. A principal diferença, para eles entre a casa deles e a República e falta de apoio e “regalias” que tinham antes – têm que cuidar de todos os detalhes, como contas de água luz, compras, etc. Antes tinham também ajuda para conseguir cursos, trabalho e agora tem que se virar sozinhos. Na República Autônoma existem regras de convivência, que são conversadas entre os meninos, como por exemplo – não é possível usar drogas dentro da casa. Lucas e Tiago contaram também de seu trabalho como tatuadores e da montagem de seu estúdio.

Grupo Nós

Mahyra Costivelli, coordenadora do Grupo Nós, apresentou este programa do Instituto Fazendo História, que tem por objetivo geral acompanhar e facilitar o processo de transição de jovens em serviços de acolhimento para a vida autônoma e inserida na comunidade. O projeto possui quatro objetivos específicos: promover a apropriação da cidade e cultura – que eles tenham outros espaços de pertencimento; promover o uso consciente do dinheiro – percebida durante o processo como questão urgente para trabalhar com os meninos; desenvolvimento de projetos profissionais e desenvolvimento de projetos de moradia.

O projeto começa a trabalhar com os meninos aos 16 anos e a ideia é acompanha-los por 3 anos, até um ano depois de sua saída do serviço de acolhimento. A principal estratégia utilizada são os encontros individuais: cada adolescente possui um técnico de referência com quem se encontra a cada 15 dias para pensar seus projetos e realizar ações para concretizá-los. Uma vez por mês acontece também um grupo de discussão temático, no qual se reúne todos os jovens que participam do projeto e são trabalhos temas ligados aos objetivos específicos do Programa. Uma vez por mês acontece também uma saída cultural, por exemplo para cinema, parque, shows, etc. Além destes encontros, os jovens do projeto têm contato frequente com seus técnicos de referência através de contatos telefônicos e facebook.

Para auxiliar na execução de seus projeto e trabalhar a questão do uso consciente do dinheiro, os jovens participantes recebem bolsas (primeiro ano – R$50,00; segundo ano – R$100,00; terceiro ano – pode ser de R$200,00 a partir de alguns critérios). A ideia é que possam utilizar o dinheiro e se organizar para ir aos encontros do projeto e os técnicos possam acompanhar os jovens nesse processo. Há reuniões para parceria entre Grupo Nós e técnicos do serviços de acolhimento, para alinhamento do trabalho feito com os jovens. Além da parceria com os serviços, os jovens escolhem participar do projeto. Participam primeiro de um grupo de apresentação  a partir dai, se quiserem participar devem escrever uma carta de interesse e ir a entrevistas individuais. A avaliação do projeto é feita com os jovens a cada 3 meses, com questionários e relatórios que observam seus ganhos e dificuldades.

O que é esperado do jovem com relação à moradia:

Ano 1 – Que tenham um grau razoável de organização para os compromissos diários (acordem sem despertador, cheguem no horário, cumpram com responsabilidades da casa), que tenham feito um mapa das possibilidades da moradia

Ano 2 – Que tenham um grau de conhecimento sobre as possibilidades de moradia (como funciona um albergue, uma república, quanto custa um aluguel), que saibam lavar roupa e cozinhar

Ano 3 (quando já estão fora do serviço) – Que sejam referenciados ao CRAS e CREAS da região, se tem CAD único, se tem informações sobre os benefícios disponíveis e se tem projeto de moradia estável.

Mahyra conta sobre duas ferramentas de apoio ao trabalho construídas pelo Grupo Nós – a agenda, instrumento de organização pessoal e o Portal Nós no mundo, que é um site de apoio com informações sobre as áreas relacionada a autonomia, que será lançado em breve.

República Jovem

Este serviço foi apresentado pelos coordenadores de Repúblicas Darlene Fróes (RJ Casa Verde) e Ronnie Pereira (RJ Vila Formosa). Segundo eles, este é um serviço novo, que está sendo aperfeiçoado. Na cidade de São Paulo, existem 4 Repúblicas Jovens, sendo que cada uma é dividida em duas casas (meninas e meninos), com 6 vagas cada. O tempo de permanência na RJ é de até 3 anos ou até o jovem completar 21 anos de idade. A equipe é composta por um gerente, um assistente social e um psicólogo. Não há profissionais que trabalham 24 horas na casa, orientadores sócio educativos ou operacionais, sendo que os jovens precisam desenvolver autonomamente todas as tarefas relativas à manutenção da casa. De acordo com Ronnie e Darlene, para minimizar o impacto decorrente desta mudança de estrutura (do abrigo para a República) é necessário que este trabalho seja feito com o adolescente antes de sua ida para a RJ. A vaga deve ser solicitada pelo serviço de acolhimento com 4 meses de antecedencia, para que o processo possa ser trabalhado respeitando algumas etapas de aproximação.  Com relação à regulamentação referente à RJ, existem somente 2 páginas de uma portaria, que dispõe sobre o perfil do jovem: vivencia de rua, estado de abandono, situação de vulnerabilidade social, vínculos familiares rompidos, fragilizados e sem condições de moradia; e objetivos da RJ: assegurar moradia promovendo vínculos comunitários e acesso a serviços territoriais, auxiliar na construção de ações para o bem estar coletivo (rodas de conversa, estabelecimento comum de regras de convivencia), estimular ações que possibilitem a construção de um projeto de vida autonomo (PIA, atendimentos individuais, trazer ações concretas para as ideias dos jovens), promover ações que possibilitem resgate de vínculos familiares, caso seja o desejo do jovem, estabelecer modos de participação dos jovens nas tarefas da casa. De acordo com os especialistas, a ida para a República não deve ser um encaminhamento automático, mas sim uma escolha entre outras possibilidades e é preciso que seja continuidade de um trabalho já realizado no abrigo (a autonomia deve ser trabalhada bem antes da saída do serviço, ex: acordar sozinho, cozinhar). Para finalizar, falando sobre a saída da República, Darlene diferencia o desligamento objetivo (condição financeira para sair da RJ e ir para algum lugar) do desligamento subjetivo (jovem não se enxerga mais tendo uma instituição por trás, tem condição assim de seguir de forma autônoma).

Após as falas, os participantes de dividiram em subgrupos para discussão e no final do encontro apresentaram as seguintes estratégias construídas:

– Trabalhar do micro para o macro: o trabalho com autonomia deve começar pela organização das coisas pessoais, para ir se ampliando até a organização de outras coisas na instituição. O trabalho com autonomia começa a partir do momento que a criança ou adolescente chega na casa, independente da idade que tem. O trabalho deve ser feito de acordo com a faixa etária, por exemplo: uma criança pequena deve guardar seus brinquedos, um adolescente deve aprender a cozinhar.

– Conscientização de o que o jovem tem responsabilidades: deve cuidar de sua agenda, de seus compromissos. É importante que se trabalhe pequenos projetos na rotina que desenvolvam autonomia, como por exemplo: trabalhar o valor do dinheiro levando-os ao mercado, dando mesada, circular pela cidade, etc.

– Aguçar a capacidade de escutar, de olhar e de cuidar do outro para aprender a cuidar de si.

– Escuta e legitimação das escolhas do sujeito, chamar o adolescente para a construção de seu PIA.

Assista aos vídeos da oficinas (Eles estão disponíveis na íntegra):

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Sistematização OFICINAS :: Diagnóstico, para quê? Reflexões sobre a medicalização de crianças e adolescentes :: 26/09/2015

 

No dia 26/09/15, foi realizada a Oficina: “Diagnóstico para quê? Reflexões sobre a medicalização de crianças e adolescentes”, com a participação dos especialistas: Gustavo Diniz Ferreira Gusso, graduado em Medicina pela Universidade de São Paulo, Residência em Medicina de Família e Comunidade pelo Grupo Hospitalar Conceição, Mestrado em Medicina de Família pela University of Western Ontário e Doutorado em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo. É membro efetivo do Wonca International Classification Committee e Professor Doutor da Disciplina de Clinica Geral da Universidade de São Paulo; e Gabriela Gramkow, psicóloga, pesquisadora Doutora em Psicologia Social pela PUC-SP. Tem experiência docente no ensino universitário. Atua na área de Psicologia Social, principalmente nos seguintes temas: Saúde Mental e Justiça, Adolescência e Violência.

Gustavo iniciou a Oficina falando sobre a importância e os avanços da Medicina, que permitem que muitos sintomas sejam diagnosticados e tratados, mas também pode ser um problema quando este exercício passa a ser realizado de maneira automatizada sem distinção entre sintoma e diagnóstico, privilegiando as intervenções medicamentosas.

Gustavo falou sobre um fenômeno mundial conhecido como Disease Mongering (marketing da doença), que consiste em “bombardear” a população com informações sobre doenças e sintomas, de maneira que a população acaba por realizar auto diagnósticos e diagnósticos nas pessoas próximas, com vistas a soluções imediatistas, através da medicalização. Neste sentido, a mídia exerce um papel importante neste movimento de instaurar o medo na população e consequentemente o aumento no número de consumo de medicamentos.

Gustavo trouxe informações importantes acerca da indústria farmacêutica e de seus mecanismos para aprovar e disponibilizar medicamentos para a população. Um dado importante é que grande parte dos medicamentos que concorreram à aprovação para circulação, são aprovados sem estudos sobre os efeitos colaterais, o que acaba por potencializar o uso indiscriminado de medicamentos como solução para problemas médicos, que muitas vezes tratam de questões de outras ordens.

Neste sentido, é importante reconhecer o contexto social e histórico que vivemos, pois houve um grande aumento no número de transtornos mentais sendo reconhecidos no DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), que já está em sua quinta edição, bem como o aumento dos medicamentos desenvolvidos para “atender a estas demandas” nos últimos anos. Há um fenômeno social de muito medo instaurado na sociedade, que busca a medicalização como primeiro recurso para lidar com o medo de sofrer com doenças.

Na psiquiatria, diferentemente de outras especialidades médicas, não é possível realizar um diagnóstico a partir de evidências como exames de sangue, por isso, é fundamental estar atento a maneira como os diagnósticos são constituídos, a fim de não rotular os pacientes a partir de alguns sintomas. Para que haja um bom diagnóstico, segundo Gustavo, os sintomas devem estar presentes na maioria dos ambientes em que a criança/adolescente frequenta. Neste sentido, Gustavo fez uma crítica importante acerca do grande número de crianças e adolescentes “diagnosticados como portadores de TDAH” e do uso indiscriminado de Ritalina (medicação utilizada no tratamento do TDAH), como um recurso utilizado para conter as crianças e adolescentes e não para beneficiá-las a partir de um tratamento adequado, que reconheça o sofrimento da criança/adolescente.

O Transtorno de Déficit de atenção e hiperatividade é um dos transtornos que já era reconhecido desde 1798 como um transtorno relacionado a questões bioquímicas do cérebro, que afetavam diretamente a memória, mas passou por atualizações e há 3 décadas como um transtorno relacionado também por sintomas comportamentais relacionados à hiperatividade. Atualmente no Brasil, cerca de 6,5% das crianças tem o diagnóstico de TDAH.

Gustavo aponta para o fato de que as crianças e adolescentes acolhidos possuem vivências de rupturas, perdas, frustrações e etc, e que este é o diagnóstico. A “hiperatividade” que é reconhecida nas crianças, talvez seja uma maneira de lidar com suas vivências, e medicá-las não contribuirá para a elaboração destas vivências. Portanto, a medicalização das crianças e adolescentes acolhidos acaba por ser uma ferramenta de controle e contenção da criança e não considera seu histórico tampouco oferece espaços para lidar com suas emoções. É preciso ultrapassar a barreira de realizar o que é mais interessante para a instituição e poder olhar com mais atenção para cada criança e junto com ela explorar outras possibilidades de intervenções e tratamentos.

Gustavo encerra sua fala apontando para o fato de que a sociedade tende a transformar problemas sociais em outro nome. “Se o diagnóstico é abandono, como posso colocar TDAH e receitar ritalina”? O que esta criança precisa não é ficar quieta, é falar sobre o que sente. É preciso pensar em alternativas de tratamento para além da medicalização.

Quem são as crianças e adolescentes que chegam aos serviços de acolhimento?

Após a fala do Gustavo, Gabriela iniciou seu discurso a partir da validação da importância do posicionamento do Gustavo enquanto médico, questionando um dos modelos de atuação da medicina.

Gabriela reforça a questão do contexto nos serviços de acolhimento no qual as crianças e adolescentes devem seguir a norma, a regra, e todas as “anormalidades” tendem a ser contidas e corrigidas. Neste sentido a anormalidade é compreendida como doença. Gabriela faz uma analogia dos manicômios com os serviços de acolhimento, na qual há um ranço da institucionalização e de padronização, nos quais as pessoas eram medicadas e afastadas do convívio social.

Neste sentido, questiona se os serviços de acolhimento não estão atuando de maneira similar a esta lógica do controle, da punição? Gabriela reforça que não se trata de negar os sintomas das crianças e adolescentes, mas é preciso considerar as subjetividades de cada um (sofrimentos e potências).

Gabriela trouxe uma análise histórica da constituição dos serviços de acolhimento, no qual estava baseado na pobreza e no assistencialismo, e que até hoje ainda está presente na compreensão das crianças e adolescentes que são estigmatizados, voltados para o que é anormal e doença. Neste sentido a patologização e a medicalização acabam por permanecerem ainda mais presentes nas intervenções das equipes. Neste sentido, enquanto as crianças são estigmatizadas há uma perversidade e negligência das equipes com relação aos direitos das crianças e adolescentes, e ao verdadeiro papel dos serviços. Se os serviços de acolhimento buscarem por diagnósticos como possibilidades de intervenções, estarão tutelando o processo de estigma. Por isso, é fundamental resgatar o papel do acolhimento da equipe nos serviços e sair da lógica dos encaminhamentos para a Rede, tendo um posicionamento mais atuante de articulação na garantia dos direitos. Os serviços de acolhimento são responsáveis pelo agenciamento e promoção dos direitos globais das crianças, na qual a trama da vida de cada uma possa ser cuidada por diferentes atores. O acolhimento pressupõe a articulação entre atores do SGDCA, nos quais nenhum dos atores atenderá às necessidades das crianças e adolescentes de maneira total.

Perguntas para os especialistas:

 Como lidar com o caso de deficiência intelectual de uma adolescente acolhida que engravidou e teve que ser separada de seu bebê alguns meses após seu nascimento?

  • Como encontrar recursos que não a medicalização?
  • Como garantir atendimento psicológico público e de qualidade para as crianças e adolescentes acolhidos?
  • Como mobilizar a Rede para alternativas de tratamento não medicamentosas?
  • Até que ponto a medicalização auxilia na elaboração dos traumas?

No caso da adolescente é inevitável realizar uma analogia ao sistema prisional no qual as mulheres permanecem com seus filhos durante alguns meses e depois são separados. A pergunta é: Quem defende os direitos desta adolescente de permanecer com seu filho? Quem sugeriu o afastamento? Esta adolescente passa novamente pela impossibilidade do direito à convivência familiar e comunitária, e teve este direito negado. É importante considerar os indivíduos a partir de sua subjetividade e apoiá-los em suas fragilidades e potências. Separar a mãe do bebê (ainda que tenha algumas limitações nos cuidados de seu filho) é perpetuar a prática de rupturas e de violações de direitos, isso não deve acontecer. Os filhos só são separados se houver um parecer favorável do Saica ou de algum equipamento da Rede, caso contrário nada impede que a adolescente permaneça com seu filho. Os serviços de acolhimento precisam atuar na dinâmica do cuidado e proteção, e isso é mais potente quando realizado a partir do coletivo.

A medicalização é uma atuação na perspectiva médica, por que não optar por percorrer caminhos de estar ao lado das crianças e experimentá-los com elas e não por elas? O estigma da normatização promove a prática de medicalização como primeiro recurso, um recurso milagroso que resolverá o problema da anormalidade.

No histórico da saúde mental, as crianças sempre foram objetos de normalidade e normatização. A atuação é pelo controle de intervenção. Atualmente estudos mostram que 60% das crianças acolhidas estão medicalizadas e isso diz muito sobre como os serviços de acolhimento lidam com o sofrimento das crianças e adolescentes.

É importante refletir sobre a prática e como atuamos como operadores de direitos da porta para dentro e da porta para fora. Dizer que a Rede não funciona é atestar que não estamos realizando o nosso trabalho, pois a Rede somos nós! Quais Fóruns e espaços de militância pertencemos? Quem são os candidatos a conselheiros tutelares onde atuam? Precisamos ter uma atuação mais propositiva e presente, pois os educadores e técnicos dos serviços de acolhimento são especialistas no cuidado de crianças e adolescentes, mas parece não ter esta percepção.

Indicações bibliográficas:

Sano y salvo: Y Libres de intervenciones medicas innecessarias – Juan Gerbas, Mercedes Perez Fernandez – Los libros del lince 2013. (Livro em Espanhol).

Os vídeos da oficina:

 

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Sistematização OFICINAS :: Sexualidade na infância e adolescência :: 29/08/2015

No dia 29 de agosto de 2015, foi realizada a oficina Sexualidade na infância e adolescência, com a presença dos especialistas Renata Guarido e Raul Araújo.

Renata iniciou o encontro trazendo um panorama do desenvolvimento da sexualidade humana. Segundo ela, costumamos pensar em sexualidade somente como o ato sexual. Assim, quando nos deparamos com uma situação relacionada à sexualidade na infância, imaginamos que é algo que veio de fora, alguém estimulou (como se a expressão da sexualidade não pudesse partir da criança).

Renata faz uma diferenciação da sexualidade nos humanos e nos animais. Para os animais a sexualidade é instintiva e acontece somente no momento da reprodução. Após o ato sexual, a satisfação é completa e volta a acontecer somente no próximo período reprodutivo.

A sexualidade humana não é instintiva – ela é construída e é algo que se organiza durante toda a vida, desde o nascimento. Pode ser estimulada de diversas formas, como por exemplo uma música, um cheiro, uma atividade. Também diferentemente dos animais, a excitação não termina e não está ligada somente à função reprodutiva – ela pode ter as mais diversas formas.

Sexualidade é aquilo ligado às experiências prazerosas e o corpo é o lugar onde o prazer acontece, um espaço erotizado. O prazer é algo construído durante a vida, a partir das relações que estabelecemos com os outros. O prazer é, então, algo que se inscreve e deixa rastros.

O prazer no corpo é algo que acontece desde primeira infância. Por exemplo, um bebê, mama não somente para obter o alimento, mas pelo prazer que tem em “chupetar”. Em outros exemplos, como na hora do banho, o prazer não vem somente pela satisfação da necessidade, mas pelo toque no corpo que as atividades de cuidado envolvem. Assim, quando cuidamos, estamos, ao mesmo tempo que satisfazendo necessidades, erotizando o corpo. O corpo é, portanto, uma região marcada pelo prazer – uma superfície de prazer – resultado do encontro com um outro.

O erotismo se manifesta de formas diferentes na infância, adolescência e na vida adulta. O encontro do corpo de crianças com adultos, que não seja da ordem do cuidado, para a criança é abusivo. Se o encontro for entre crianças, não pode ser considerado da ordem do abuso, mas sim da sexualidade infantil.

Sexualidade na infância é um conjunto de acontecimentos prazerosos, mas não definidos. Excitação, para a criança, é algo global – acontece e toma o corpo todo, não é circunscrita a uma região específica. Não é possível acontecer o ato sexual na infância, pois o corpo não está preparado para isso – não existe orgasmo na infância. Não há também, na infância, escolha sexual – tanto faz se é o outro é um corpo de menino ou menina, pois a criança está centrada nas experiência do próprio corpo. Hetero e homossexual são, portanto, definição que ocorrem somente na adolescência.

Sexualidade na adolescência não tem muita diferença da sexualidade na vida adulta. É na adolescência, a partir da puberdade,  que o corpo passa a estar pronto para viver o ato sexual. Adolescência é um acontecimento subjetivo (pode ser diferente nas diversas culturas) e a puberdade é um acontecimento biológico, que envolve hormônios e mudanças corporais.

A sexualidade é algo absolutamente singular – é construída na história de um sujeito, dos encontros do seu corpo com o corpo dos outros. Um mesmo acontecimento é vivido por pessoas diferentes de forma diferentes. Por exemplo, nos diferentes tempos históricos, o significado que se dá à sexualidade na infância ou a homossexualidade pode ser totalmente diverso.

Renata conclui sua fala trazendo esta importante ideia do olhar para a singularidade e contexto de cada sujeito. Costumamos olhar para as situações a partir das nossas histórias, do que vivemos e muitas vezes não corresponde ao que está acontecendo em outra realidade.

Raul Araújo, em seguida à fala de Renata, traz a questão da sexualidade na perspectiva do direito. Como lidamos com a questão da norma – o que é certo errado, justo ou injusto – quando falamos sobre sexualidade no serviço de acolhimento? Raul resgata a origem do ECA, na Constituição Federal de 1988, quando a criança e o adolescente aparecem pela primeira vez como sujeito de direitos. Segundo ele, os direitos das crianças e adolescentes são ainda algo novo e contestado, pois até 1990 a legislação vigente era o Código de Menores, que previa a intervenção do Estado e não firmava direitos. Algumas pessoas dizem que as crianças e adolescentes tem muitos direitos e não deveres, que não são punidos. Segundo Raul, os serviços de acolhimento têm uma forte ligação com questões ligadas à sexualidade, pois em sua origem, nos antigos orfanatos, escondiam a vergonha dos filhos fora do casamento, que escancaravam a sexualidade da mulher e a repressão desta sexualidade.

Raul traz a ideia dos Direitos Sexuais e Reprodutivos. Segundo ele, durante a construção do Plano Nacional de Direitos Sexuais e Reprodutivos, este plano transformou-se no Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra à Criança e o Adolescente, o demonstra uma dificuldade em entender as crianças e adolescentes como sujeitos de direitos.

Os direitos sexuais e reprodutivos são:

  • Direito de viver e expressar livremente a sexualidade sem vio­lência, discriminações e imposições e com respeito pleno pelo corpo do(a) parceiro(a).
  • Direito de escolher o(a) parceiro(a) sexual.
  • Direito de viver plenamente a sexualidade sem medo, vergo­nha, culpa e falsas crenças.
  • Direito de escolher se quer ou não quer ter relação sexual.
  • Direito de viver a sexualidade independentemente de estado civil, idade ou condição física.
  • Direito de ter relação sexual independente da reprodução.
  • Direito de expressar livremente sua orientação sexual: heteros­sexualidade, homossexualidade, bissexualidade, entre outras.
  • Direito à informação e à educação sexual e reprodutiva.
  • Direito ao sexo seguro para prevenção da gravidez indesejada e de DST/HIV/AIDS.
  • Direito aos serviços de saúde que garantam privacidade, sigilo e atendimento de qualidade e sem discriminação.
  • Direito das pessoas de decidi­rem, de forma livre e responsá­vel, se querem ou não ter filhos, quantos filhos desejam ter e em que momento de suas vidas.
  • Direito a informações, meios, métodos e técnicas para ter ou não ter filhos.
  • Direito de exercer a sexuali­dade e a reprodução livre de discriminação, imposição e vio­lência.

Afirma-se, portanto, o direito a ter prazer e desenvolver sua sexualidade de forma saudável– independentemente da condição da criança ou adolescente.

Segundo Raul, muitas vezes as experiências ligadas à sexualidade, prazer e afetos são reprimidas e, por vezes, punidas – marcando na história da criança a ideia de que a sexualidade é algo errado e ligado à transgressão. O Abrigo é o lugar onde muitas vezes estão sofrendo por conta dos rompimentos e da falta do contato afetivo e, por vezes, justamente quando conseguem se vincular (quando começam a namorar por exemplo), essa atitude é controlada e reprimida.

A partir das falas dos dois especialistas, considerando as manifestações das sexualidades existentes nas diferentes faixas etárias, o grupo foi convidado a refletir sobre: Que histórias de prazer e relação com os próprios corpos as crianças e adolescentes estão construindo a partir dessas vivencias nos serviços? As crianças e adolescentes tem estes direitos garantidos nos serviços de acolhimento? Como organizar espaços e ações que promovam a oportunidade do desenvolvimento da sexualidade e prazer de forma saudável?

 Os vídeos da oficina:

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Sistematização OFICINAS :: “Chegadas e despedidas: Trabalhando rupturas no cotidiano :: 23/07/2015

No dia 23/07/15, foi realizada a Oficina: “Chegadas e despedidas: Trabalhando rupturas no cotidiano”, com a participação das especialistas: Valéria Tinoco e Bianca Maidlinger. Valéria é Psicóloga, Mestre e Doutora pelo Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP, co-fundadora, professora e supervisora do 4 Estações Instituto de Psicologia, membro do LELu da PUC-SP, especialista em Psicoterapia Breve pelo Instituto Sedes Sapientiae, co-autora do livro “O dia em que o passarinho não cantou” (Ed. Livro Pleno, 2000) co-organizadora do livro “Luto na Infância: Intervenções Psicológicas em Diferentes Contextos” (Ed. Livro Pleno, Campinas, 2005) e de capítulo em livro. Bianca Maidlinger é formada em pedagogia Waldorf, e dedica-se a estudos e práticas da Pedagogia de Emergência.

Valéria iniciou o encontro compartilhando sua trajetória profissional com o tema, a partir de sua atuação no Instituto Quatro Estações. Valéria compartilhou ainda sua experiência profissional em um Serviço de Acolhimento na Colômbia.

Por que este tema não é tão mobilizador no cotidiano dos abrigos?

Valéria aponta para o fato de que o tema não é compreendido como tão importante no cotidiano dos abrigos, em decorrência de suas dinâmicas de funcionamento, que costumam ser mobilizados pelas urgências.

O que fundamenta a existência dos SAICAs são rompimentos. Todas as crianças e adolescentes acolhidos vivenciaram rompimentos, portanto, se os rompimentos fundamentam o trabalho nos SAICAs, é de suma importância pensar em metodologias de trabalho que comtemplem as chegadas e despedidas, tanto para quem vai quanto para quem fica.

As crianças e adolescentes acolhidos chegam aos SAICAs após perder a possibilidade de conviver com suas famílias, amigos, continuarem nas escolas onde estudam, perdem suas referências, liberdade, privacidade, seus pertences pessoais e tudo que era conhecido. As crianças e adolescentes não queriam estar ali, por isso muitas vezes expressam este sentimento através da agressividade, ou na recusa em receber cuidados.

Neste sentido, as crianças estão vivendo um processo de luto destas perdas, por isso, é fundamental que as equipes possam desenvolver a empatia e acolhimento destas questões, de maneira que possam proporcionar para as crianças e adolescentes acolhidos, a oportunidade de desenvolver novos vínculos de confiança e novas experiências de chegadas e despedidas, que possibilite vivenciá-las sem que sejam mais momentos de rupturas.

E os vínculos, quais são os limites na convivência com crianças e adolescentes? Será que é melhor não se vincular?

A possibilidade de desenvolver vínculos de confiança é fundamental para o desenvolvimento das crianças e adolescentes, para que eles possam acreditar que possam ser amados e cuidados. A quebra do ciclo de rompimentos só é possível através de vínculos seguros, ainda que sejam temporários. Os vínculos não estão relacionados com o tempo, mas com a qualidade das relações. Por isso, independente do período em que a criança permanecer no abrigo, é importante desenvolver vínculos com elas, de maneira que elas desenvolvam relações de confiança e possam se crescer de maneira saudável.  Muitas vezes estas crianças vivenciam relações de confiança pela primeira vez nos abrigos.

A equipe de educadores e técnicos tem um papel fundamental na promoção de espaços de conversa e rituais de chegadas e despedidas, bem como a disponibilidade afetiva para o desenvolvimento dos vínculos. Ao acolher as crianças e adolescentes, é importante não responder com raiva e abandono aos ataques que eles realizam como tentativa de testar novos abandonos, e sim responder através da aceitação, curiosidade, empatia, divertimento e afeto.

O que é Pedagogia de Emergência?

Após a fala de Valéria, Bianca inicia sua fala, apresentando brevemente a pedagogia Waldorf e contextualizando a Pedagogia de Emergência, criada em 2006. Segundo Bianca, Pedagogia de Emergência são intervenções realizadas antes da instalação do trauma. Os traumas são considerados como vivências emocionais muito estressantes, tais como: maus tratos, abuso, guerra, desastres naturais, que dependem da intensidade, duração, idade, contexto e rede social disponível no momento. O apoio familiar é um fator muito importante de proteção ao trauma, especialmente em situações de guerra.

As fases de intervenções são: Aguda (até dois dias após o acontecimento de uma situação traumática), estresse pós-traumático (até uma semana após a situação traumática), distúrbios pós-trauma e mudança permanente. As intervenções são realizadas até 8 semanas após o fato, pois entende-se que ainda é possível reverter a situação traumática.

Luto X Trauma

Segundo Bianca, todo trauma acompanha um luto, uma perda. Nem sempre o luto está relacionado ao trauma, mas à possibilidade de despedida. O luto está mais relacionado a rupturas e separações, e pode apresentar-se com desânimo aparente, raiva, no qual falar a respeito pode aliviar. O trauma está relacionado a maus tratos, abuso, guerra e desastres naturais. Todo trauma acompanha um luto. Ao vivenciarmos situações traumáticas, os sentidos ficam comprometidos, por isso, a metodologia de intervenção da pedagogia da emergência contempla atividades como: jogos cooperativos, atividades com equilíbrio, ritmos, aquarela, música, dança, argila e contação de histórias, como possibilidade de elaboração das vivências traumáticas.

Na concepção da pedagogia da emergência, as crianças “traumatizadas” são portadoras de necessidades especiais, pois interferem diretamente em aspectos físicos e psicológicos, e necessitam de um cuidado diferenciado.

A partir do momento em que o trauma já está instalado, no contexto do acolhimento, é importante considerar as experiências e possibilidades de futuro. A fim de apoiar as crianças e adolescentes que vivenciaram situações traumáticas, é fundamental que as equipes possam atuar em três dimensões: psicológica (relacionamento/vínculos com os “cuidadores”), vital (rotina, aniversários, altar para ritualizar despedidas) e física (relacionada a estrutura do local). Acredita-se que a partir de bons vínculos, é possível elaborar traumas relativos à perda de confiança e investimento no afeto, assim como espaços de verbalização e realização de práticas e rituais que permitam externalizar emoções, bem como um espaço físico acolhedor e cuidado, favorecem a elaboração de traumas. Clareza, transparência e estética curam.

As questões trazidas às especialistas foram:

– Qual o prazo ideal para comunicar a criança/adolescente e funcionário sobre o desacolhimento? Qual preparo deve ser feito?

– Como profissionalizar o vínculo sem perder o afeto?

– Como lidar emocionalmente e profissionalmente com os desligamentos, considerando as rupturas abruptas que acontecem?

– Como trabalhar as despedidas quando decisões do Fórum são repentinas, e as crianças vão para a família logo após a audiência?

Com relação ao preparo para o desacolhimento, é importante ter clareza do que e quem queremos preparar, para que os adultos possam atuar com maior segurança. O prazo é um elemento fundamental no preparo para o desacolhimento, tanto para os educadores quanto para as crianças, a considerar um planejamento específico para cada criança. Incluir a criança em tudo que lhe diga respeito é muito facilitador e importante.

As instituições que já contemplam estes procedimentos no PPP (Plano Político Pedagógico) facilitam um tanto no fortalecimento desta prática de maneira cuidada no cotidiano dos serviços. Isso é o ideal! Poder validar os sentimentos das crianças e adolescentes a partir dos sentimentos dos adultos, é confortante para as crianças. Porém, muitas vezes não é possível realizá-lo de maneira cuidadosa, em decorrência das decisões judiciais realizadas abruptamente, e nestas situações, poder ser honesto com as crianças sobre os sentimentos decorrentes do desacolhimento e sobre as possibilidades de despedidas naquele momento, contribuem bastante.

Com relação à impossibilidade das crianças se “despedirem” de seus pais em decorrência da destituição do pátrio poder, Valéria acredita que a equipe deve sustentar a decisão junto ao judiciário, a partir de uma metodologia de trabalho que justifique os benefícios desta ação. Se não for possível mais uma vez, poder falar a verdade com as crianças e adolescentes sobre o que foi decidido, é fundamental.

No caso dos limites dos vínculos entre educadores e crianças após o desacolhimento, o importante é ser uma relação confortável para ambos. Quando as relações começam a ficar muito misturadas, é um indicador de que não estão bem. O vínculo de afeto pode existir, mas precisa de cuidados, de limite.

Valéria reforça a importância de não naturalizar as rupturas e promover oportunidades de chegadas e despedidas que contribuam para as relações das crianças e adolescentes com esta questão. Além disso, Valéria acredita que as instituições terem um álbum para registrarem as crianças e adolescentes e suas histórias, e os momentos vivenciados ali, pode ser uma boa estratégia para se trabalhar também este tema, tanto com quem vai, quanto com quem fica.

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Sistematização OFICINAS :: “Adolescência e uso de drogas: pensando caminhos :: 18/07/2015

FullSizeRender (9)No dia 18/07/15, foi realizada a Oficina: “Adolescência e uso de drogas: pensando caminhos”, com a participação dos especialistas: Bruno Ramos Gomes, que possui graduação em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2006), e mestrado em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Atualmente é coordenador e presidente do Centro de Convivência É de Lei, além de psicólogo clínico e Acompanhante Terapêutico. Atua principalmente nos seguintes temas: drogas, redução de danos, vulnerabilidade, crianças e adultos em situação de rua, direitos humanos;  e Valéria Pássaro, que é educadora, com formação emeducação libertária, com experiência na coordenação e desenvolvimento de processos de formação em política de assistência e desenvolvimento social. Atualmente é coordenadora pedagógica da Moradia Associação Civil, que trabalha com crianças e jovens em situação de grave risco social.

Bruno iniciou o encontro apontando para o fato de que as drogas sempre existiram na história da humanidade, e que em cada cultura, o uso das drogas tem objetivos/motivações distintas, podendo ter um cunho: religioso, mágico, criativo ou recreativo.

Na cultura dos Andes, o uso de bebidas alcóolicas tem por objetivo “encontrar com o mágico”, com o superior. Em algumas culturas hindus, o uso de maconha tem finalidades religiosas, assim como o vinho está presente na cultura católica.

 O que são drogas?

Etimologicamente, a palavra vem do holandês “droog”, que quer dizer seco, coisa seca. Os primeiros relatos foram em 1500 no Porto Holandês, na época em que as expedições estavam acontecendo, e com elas as especiarias sendo descobertas e transportadas para diferentes culturas. Nesta época, não havia distinção entre as drogas e especiarias, e o uso dessas substâncias foi sendo constituído de acordo com as diferentes culturas. No início do séc. XIX, 90% dos medicamentos continham ópio em sua composição química, por tratar-se de um anestésico.

Pela definição da OMS (Organização Mundial da Saúde), droga é toda substância que introduzida no organismo vivo, modifica uma ou mais de suas funções.

Alimentos e remédios também são drogas?

A partir desta definição, reflexões são colocadas: Os alimentos, remédios, veneno seriam drogas? Bruno relata que o que define uma droga não é seu componente químico, mas no contexto, no tipo de uso, dosagem e sentido para cada um. Por exemplo, o café é um alimento que contém cafeína, uma substância que também está presente em medicamentos, e para muitas pessoas causa dependência. O próprio uso da maconha, através de estudos, vem sendo discutido para uso medicinal. Desta forma, quanto menos focarmos na substância e mais no contexto, mais possibilidades de compreensão e intervenções serão possíveis.

Os efeitos causados pelas drogas dependem de aspectos como: frequência, tempo de uso, qualidade da droga, metabolismo, associação com outras drogas, condições psicológicas, físicas e contexto social. É fundamental compreender estes aspectos a fim de não colaborar com generalizações que não possibilitam a compreensão do uso para cada indivíduo, que por sua vez está inserido em um contexto social que possui seus costumes. Segundo Bruno, os contextos proibitivos potencializam o consumo.

Como lidar com o uso de drogas no contexto do acolhimento?

Valéria Pássaro iniciou sua fala compartilhando sua trajetória profissional e experiência com adolescentes na Casa das Expedições, Ubuntu e Casa Taiguara. Valéria compartilhou a percepção de que a nossa sociedade possui uma visão muito moralista sobre drogas, sobretudo nos serviços de acolhimento nos quais as equipes estão mais preocupadas com a trajetória das drogas do que com as histórias de vida dos meninos. Valéria aponta para a importância de reconhecer os diferentes tipos de uso, a fim de não haver generalizações na compreensão dos fenômenos.

Neste sentido, é fundamental trabalhar com projetos de vida, a partir das trajetórias individuais de cada um, e nos quais eles possam trazer seus desejos e não a partir de nossos valores morais. Neste sentido, é fundamental ver os desejos e possibilidades das famílias junto com elas e não por elas.

As drogas fazem parte da adolescência, por isso é fundamental ofertar espaços para diálogo, para que eles possam falar sobre a sua relação com as drogas e não espaços moralistas de questionamentos.

Valéria falou sobre uma perspectiva importante na relação entre os educadores/técnicos e os adolescentes, na qual os lugares dos profissionais reafirmam o lugar dos adolescentes podem ter no mundo. Neste sentido, que intervenções favorecem a possibilidade dos meninos recriarem seus lugares no mundo, com novas maneiras e perspectivas?

Os adolescentes não são todos iguais, é preciso olhar para eles individualmente, o que acaba não acontecendo no cotidiano dos SAICAS, que acabam por exercer uma atuação muito “robotizada” e careta, favorecendo a compreensão dos adolescentes como problema e tendendo a medicalização para a normatização. Se os médicos prescrevem, pode-se usar drogas lícitas, mas ilícitas nem pensar! Valéria trouxe importantes reflexões acerca da banalização da medicalização lícita.

Valéria ressalta a importância da revisão e reinvenção das formas de se receber os meninos, e sair da perspectiva do julgamento do certo e errado. Os adolescentes chegam fragilizados, muitas vezes sem perspectivas, nas quais a única “saída” é recorrer para o uso de drogas, e assim apresentam o melhor e o pior deles, como maneira de pedir ajuda, e se os abrigos não estão preparados para lidar com isso, acabam por colocar em prática atuações coercitivas que colaboram para as rupturas, fragilizando as relações e potencializando o uso de drogas.

Por fim, Valéria ressalta a importância de favorecer um espaço para pensar os desejos e projeto de vida, a partir da perspectiva do aqui agora e não do futuro, pois se eles não têm clareza sobre o que eles são e querem neste momento, como poderão pensar no futuro?

Valéria indica dois filmes que podem contribuir para o trabalho com os adolescentes e uso de drogas, que são: “Os alunos da sala 36” e o documentário “Tarja branca”.

Após a exposição dos especialistas, os participantes reuniram-se em pequenos grupos para discussão e trouxeram as seguintes questões para os especialistas:

– Como lidar com as diferentes regras de serviço de acolhimento e família (na questão do apadrinhamento)? Por exemplo, o serviço trabalha com o adolescente, mas quando ele vai para a família, a realidade é outra.

– Como tornar as atividades e outros espaços tão atrativos quanto o prazer do uso de drogas?

– Como lidar com a influência dentro do serviço de acolhimento, quando chega um adolescente que é usuário e acaba levando outros para o mesmo caminho?

– Na prática, o que fazer frente as limitações da Rede?

– Como uma equipe acolhe um adolescente com histórico de drogadição? Como realizar este trabalho com a Rede?

– Quais as possibilidades de realizar um trabalho de redução de danos nos SAICAS?

– Como trabalhar com a família que rejeita a criança/adolescente por conta do uso de drogas?

– Como trabalhar a questão do uso de drogas enquanto equipe, quando o usuário é a família?

Para abordar o tema drogas com os adolescentes, é fundamental que não seja através de um discurso moralista ou médico, mas sim através das escolhas e consequência delas, de maneira individual. Neste sentido, trabalhar a autonomia, na qual os adolescentes possam refletir e realizar escolhas de maneira responsável é um caminho. A autonomia é um processo que deve ser realizado desde pequenos, e não às vésperas da maioridade. Outro aspecto fundamental é reconhecer as qualidades e potências dos meninos, e não só para a sua relação com as drogas.

Sobre as possibilidades de trabalho em Rede, é importante trabalhar sobre a perspectiva de parcerias para além dos serviços gratuitos, e atuar com maior ampliação e apropriação da cidade para os meninos, e sair da lógica de que “pobre” só pode fazer atividades gratuitas. O papel do abrigo é ajudar a Rede a reconhecer os meninos em sua totalidade, e a participação da família é fundamental.

Sobre a questão de drogadição na Rede, é fundamental ter clareza do que se busca e quais são os equipamentos que atendem a demanda em questão. Ainda sim, é fundamental atuar de maneira criativa, através das próprias Redes afetivas que os meninos estão constituindo, para que seja possível ofertar outras possibilidades de satisfação e prazer que as drogas causam.

Confira os vídeos desta oficina:

 

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Sistematização OFICINAS :: “Sexualidade na infância e adolescência :: 25/06/2015

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No dia 25/06/15, foi realizada no Expo Center Norte, a Oficina: “Sexualidade na infância e adolescência”

A criança pequena tem sexualidade?

 Ada aponta para o fato de que Sexualidade não é o ato sexual, ele é uma parte da sexualidade, e que desde pequenas, as crianças estão às voltas com sexualidade através de identificação do prazer no próprio corpo.

Até duzentos anos atrás, não havia o conceito de criança, ela era compreendida como um “mini adulto”. No início do século XX, Freud escreveu um texto, intitulado: “Os três ensaios sobre a sexualidade”, que rompeu com a concepção de crianças como seres assexuados e inocentes. O texto trouxe a concepção de que crianças também tem sexualidade.

Os bebês, ao chuparem chupeta não estão com fome, estão experimentando sensações de prazer. Isso é sexualidade. Até os dezoito meses de idade, os bebês “experimentam estas sensações de prazer através da boca”, da oralidade, que vai significando um lugar de prazer. Na fase do desfralde, a criança vai percebendo que o controle dos esfíncteres também pode ser algo prazeroso.

Após esta fase, as crianças começam a perceber as diferenças anatômicas entre um corpo feminino e masculino. Nesta fase, conhecida como fálica, as crianças começam a criar fantasias com relação ao pênis e começam a reconhecer que existem sensações prazerosas ao tocarem sua genitália. O fato das crianças tocarem seus próprios corpos não é errado, mas os adultos reconhecem essa prática como algo negativo e perverso, tendendo a reprimí-las.  Até os dois anos de idade, é considerada a fase auto-erógena, que representa prazer realizado pela própria criança.

O sentido carregado nas experimentações é o do prazer. O nojo e a vergonha significam que a criança começa a distinguir o que é certo e errado, a partir das percepções às reações dos adultos. É importante construir um limite entre público e privado em um determinado momento do desenvolvimento das crianças, mas nesta fase, a criança ainda não tem essa dinâmica.

Entre os cinco e sete anos de idade, as crianças passam a ter curiosidade sobre a origem dos bebês. Nesta fase, as crianças ainda não tem a capacidade de compreender o ato sexual, portanto, explicar a elas sobre a origem dos bebês é um tanto desafiador para os adultos, porém é possível utilizar livros e metáforas como a da cegonha como recursos que possam responder naquele momento ao que é possível de ser compreendido pelas crianças. A partir desta faixa etária, as crianças passam a ter prazer em atividades externas ao seu corpo, como por exemplo, aprender a ler, escrever, ou realizar algo novo. A tendência é começar a reconhecer e buscar o prazer através de estímulos externos. Uma criança que permaneça na fase auto-erógena (busca pelo prazer no próprio corpo), pode apresentar dificuldades e necessitar de um suporte especializado.

A puberdade, compreendida como fase do desenvolvimento humano no qual os hormônios estão em processo intenso de mudanças físicas e preparo para a reprodução, os adolescentes passam a reconhecer a possibilidade de ter prazer com o outro. No entanto, é uma fase conflitante, pois os adolescentes ainda não estão prontos para exercer a sua sexualidade, embora o corpo já tenha condições.

Na antiguidade, não havia adolescência como tempo de preparo. As meninas, após a sua primeira menstruação, já estavam prontas para o casamento. No entanto, a adolescência é uma fase do desenvolvimento que consiste na transição psicossocial entre a infância e a vida adulta, e possui suas especificidades de maturação inclusive no que tange à sexualidade.

Como lidar com a sexualidade dos adolescentes?

 A adolescência é uma fase de espera, de maturação emocional para lidar com a sexualidade. Neste período os adolescentes vão buscar por experimentações que são naturais, mas devem ter o apoio de adultos na orientação dos cuidados relativos às doenças sexualmente transmissíveis, gravidez precoce, entre outros aspectos. Neste sentido, a presença de um adulto, representa a sensação de não estar sozinho, e poder compartilhar experiências de fracassos e acertos, dúvidas e pedir ajuda. A presença não precisa ser necessariamente física.

As conversas sobre sexualidade são muito desafiadoras, tanto para os adolescentes quanto para os adultos. No cotidiano as crianças e adolescentes vão convocando os adultos a responderem questões relativas sobre sexualidade, muitas vezes a partir de suas próprias experiências, o que pode trazer muitos constrangimentos. Então como lidar com esse fato?

Ada aponta para o fato de que é natural que as crianças e adolescentes façam as perguntas, o que é saudável. O contrário, levar perguntas para os adolescentes é que não são indicadas. No entanto, reconhecer os próprios limites é fundamental. Um educador que seja muito tímido e reservado, que não se sinta a vontade, não é indicados para projetos e rodas de conversa sobre sexualidade. Estas rodas, devem acontecer a partir da demanda dos adolescentes e não dos educadores. É fundamental que os adolescentes possam trazer suas dúvidas, impressões, ideias e etc, e que o educador possa estar preparado para respondê-las, e caso não saiba responder, poder junto aos adolescentes procurar por respostas. Mais do que apresentar respostas a todas as perguntas, os educadores devem estar disponíveis para falar sobre o assunto.

Na adolescência já é possível ter outra abordagem sobre sexualidade e falar sobre os espaços públicos x privado, aliás esta é uma grande questão, principalmente em um contexto onde há poucas possibilidades de espaços privados, como nos SAICAs. Porém, é fundamental falar sobre masturbação e sobre os locais adequados para sua realização. Fingir que não está vendo ou agir de maneira repressiva, não contribui para uma boa relação dos adolescentes com a própria sexualidade. Não falar sobre sexualidade não impedirá que os adolescentes a vivam, assim como falar a respeito não os influenciará. É preciso ofertar espaços de conversa sobre o assunto, sem que este se torne um fantasma.

Como referências sobre o trabalho com sexualidade, Ada compartilhou um guia de orientação integral em sexualidade para jovens: “Cá entre Nós”, que tem o apoio da Unesco e Prefeitura de São Paulo, e tem por objetivo atuar na segurança humana e promoção dos direitos sexuais reprodutivos com adolescentes. O guia contém temas, atividades e oficinas que podem ser reproduzidos nos serviços de acolhimento. O guia está disponível para baixar através do link: http://unesdoc.unesco.org/images/0021/002170/217096por.pdf

As questões trazidas pelos grupos de discussões foram:

– Como lidar com o público e o privado em Instituições predominantemente coletivas?

No coletivo, existe grande oportunidade de troca, por isso não se deve reconhecê-lo como negativo. Ao valorizar o coletivo e as possíveis diferenças, é possível falar sobre o que singular, e a necessidade de preservar a intimidade de cada um.

– Como criar espaços de intimidade sem preocupação?

Isso não é possível. Mesmo quando os adolescentes estão com suas famílias, há esta angústia. É importante dar este crédito de confiança e suportar a angústia. À medida em que há confiança, o adolescente se sente mais seguro para experimentar e voltar. No caso dos namoros precoces, podem representar o desejo de elaborar os modelos familiares, e restaurar o rumo da história.

– Como lidar com manifestações de crianças que sofreram abuso?

É importante cuidar para não generalizar, pois cada criança viveu o abuso de uma forma e a forma como tentará elaborá-la também é muito singular. Muitas vezes as manifestações apresentadas pelas crianças, em decorrência de seu abuso, são formas de elaboração, seja pela repetição, seja por expressões de raiva. É importante ofertar espaços de expressão sem prejudicar aos demais, e isso só é possível quando se tem um adulto por perto, que consiga compreender e cuidar dessas expressões.

– Como lidar com a orientação sexual dos adolescentes e os limites e crenças institucionais?

Nem tudo pode ser acolhido e resolvido pelas instituições. É importante respeitar os limites e contar com o apoio de profissionais de fora quando necessário. O abrigo não é o lugar onde vai resolver o que o mundo não deu conta de resolver. A diversidade é processo aprendido, não é dado, especialmente no que tange a sexualidade, que nos traz novas possibilidades a cada dia. No caso de um adolescente que se reconhece como travesti, que chega em uma instituição religiosa com princípios e procedimentos rígidos, é sem dúvida um grande desafio. Não existe uma resposta pronta, existem caminhos e possibilidades de revisão e construção coletiva. O filme: Tomboy pode ser uma referência para se pensar e discutir em equipe esta questão.

 

 

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“Solte a Imaginação, Caneta na mão”

IMG_3297No dia 24 de junho, o Instituto Fazendo História realizou mais uma capacitação aos colaboradores do programa Fazendo Minha História. Dessa vez, as técnicas do programa Lara e Mônica apresentaram uma experiência muito bacana que tiveram nos Estados Unidos sobre escrita criativa!  Por meio de jogos e brincadeiras, elas guiaram os voluntários na construção de narrativas cheias de criatividade. Foi um encontro gostoso e divertido, todos puderam criar suas próprias histórias e refletir sobre como usar a escrita criativa nos encontros com as crianças e adolescentes.

O encontro teve a presença de 37 colaboradores que realizam os encontros do FMH em diversas regiões da cidade de São Paulo. Eles foram divididos em 4 grupos para algumas atividades que envolveram diretamente a criatividade de cada um. Uma oportunidade para mergulhar na parte prática e experimentar a potência das narrativas de ficção.

A ficção é uma ferramenta riquíssima, pois possibilita a expressão de conteúdos pessoais e importantes de maneira leve e menos direta. Ao criarmos uma história, muitos dos elementos ali presentes terão ligação, ainda que de forma menos óbvia, com a nossa história pessoal. Assim como a literatura, a escrita nos ajuda a elaborar e expressar sentimentos e emoções difíceis de serem comunicados de outra maneira.

Por isso é interessante estimular as crianças e adolescentes a praticar a escrita de forma mais criativa, utilizando não apenas os relatos da “vida real”, mas também a ficção como forma de expressão, um recurso extremamente saudável e prazeroso – assim como o brincar, fantasiar e sonhar!

Na escrita criativa não nos preocupamos, a principio, com os erros ortográficos. A curiosidade pelas regras gramaticais e o aprendizado destas pode vir como uma consequência deste trabalho. O mais importante é deixar que os conteúdos mais surreais e politicamente incorretos apareçam livremente, tudo é permitido nas narrativas literárias! E isso pode ser muito libertador paras as crianças e adolescentes.

Foi um encontro muito divertido e inspirador, tanto para os colaboradores quanto para a equipe do Fazendo Minha História. Saíram todos mais inspirados e animados para utilizar a escrita criativa nos encontros com as crianças e adolescentes.
Vamos escrever?

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